Estou lendo, nesse tempo, “SABER CUIDAR: Ética do Humano- Compaixão pela Terra”, de Leonardo Boff, livro esplendoroso e apaixonante. Neste, entre muitos conteúdos, o autor faz uma análise do que seja o homem por várias perspectivas, que, embora simples, se constituem profundas e que julgo pertinente compartilhar com vocês. Ei-la:

– “Podemos responder de muitas e diferentes maneiras à pergunta: o que é o ser humano? A questão e sua correspondente resposta encontram-se subjacentes nas formações sociais, nas diferentes visões de mundo, nas diversas filosofias, ciências e projetos elaborados pelo ingênio humano.

A resposta latente e inconsciente, porém, se torna patente e consciente, quando formulamos a seguinte questão: Que imagem de ser humano está sepultada numa cultura como a nossa que privilegia acima de tudo a racionalidade científico-técnica? A resposta natural será: o ser humano é um animal racional.

Que imagem se oculta no modo de produção capitalista e na economia exclusivamente de mercado? A resposta óbvia será: o ser humano é essencialmente um ser de necessidades (um animal faminto) que devem ser satisfeitas e, por isso, um ser de consumo.

Que imagem de ser humano subjaz ao ideal democrático? A resposta consequente será: o ser humano é um ser de participação, um ator social, um sujeito histórico pessoal e coletivo de construção de relações sociais as mais igualitárias, justas, livres e fraternas possíveis dentro de determinadas condições histórico-sociais.

Que ideia de ser humano está pressuposta na luta pelos direitos humanos? A resposta clara será: O ser humano vem dotado de sacralidade porque é sujeito de direitos e de deveres inalienáveis e se mostra como um projeto infinito.

Que compreensão de ser humano está subentendida no projeto científico-técnico de denominação da natureza? A resposta mais provável será: o ser humano se entende (ilusoriamente) como o ápice do processo de evolução, o centro de todos os seres (antropocentrismo) e considera que as demais coisas, especialmente a natureza, só tem sentido quando ordenadas ao ser humano; ele pode dispor delas ao seu bel-prazer.

Quando o místico São João da Cruz diz que o ser humano é chamado a ser Deus por participação, que imagem pressupõe do ser humano? A resposta ousada será: o ser humano tem a capacidade de dialogar com o mistério do mundo, perguntar por um último sentido e entrar em comunhão com Ele e ser um com Ele.

Por fim, que imagem de ser humano projetamos quando o descobrimos como um ser-no-mundo-com-outros sempre se relacionando, construindo seu habitat, ocupando-se com as coisas, preocupando-se com as pessoas, dedicando-se àquilo que lhe representa importância e valor e dispondo-se a sofrer e a alegrar-se com quem se sente unido e ama? A resposta mais adequada será: O ser humano é um ser de cuidado, mais ainda, sua essência se encontra no cuidado. Colocar cuidado em tudo o que projeta e faz. Eis a característica do ser humano”

Essa análise de Boff sobre o ser humano, ao meu ver, nos permite compreender, um pouco melhor esse tempo inumano que vivemos hoje. O ser humano se transformou num ser compartimentado, deixou de ser um inteiro, um com o todo. Hoje ele é segundo a ótica que é visto, o que quer dizer que ele pode ser muito à medida do que lhe é conveniente. Esse homem é egocêntrico e o egocêntrico nunca vê o próximo como próximo. Se não tem um próximo com o qual se preocupar/compartilhar, o que sobra é “EU” e, se assim o é, exclui-se a possibilidade do CUIDADO, que é o que nos faz humano como humano tem que ser.
Foi o Homem-Deus, Jesus, quem nos disse: “…Ama o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 19:19), pois, me parece, que só assim o ser humano continuará humano até o fim!
Eis o nosso grande desafio; sermos humanos (nesse tempo de veloz desumanização) como o Deus -Homem o foi: Um Ser Humano de cuidados e afetos.
Que Ele nos ajude.

Pr. Neil Barreto.

* Créditos da Imagem: Francis “Frank” Underwood, da série “House of Cards”, da Netflix.