Estou estupefato com o que vi no Reino Unido.

Eu já sabia, mas, ver com os próprios olhos é muito triste.

Templos gigantes, um dia cheio de gente e de vida, agora transformados em pub’s, boates, empresas, depósitos, etc…

Em cada canto do Reino Unido tem um templo cristão, sobretudo, protestante. Todos muito bem construídos. Arquitetura (todas, medievais) invejável, infraestrutura inacreditável, imponência admirável mas, sem gente, sem vida….sem razão de ser. (“…Deus não habita em templos feitos por mãos homens.”At 17:24)

Uma de minhas ministrações foi na cidade de Reding, nos arredores de Londres. Foi no templo de uma igreja batista fundada em 1650 mas que, hoje, em seus cultos, conta com um grupo de, apenas, cinco idosos de cabelos brancos. Seu prédio, na área central da cidade, é preservado pelo recurso recebido do aluguel de seu espaço para as reuniões de igrejas de imigrantes.

Sabemos, todos, que quase toda a Europa foi construída pelos valores da Reforma Protestante, que nesse ano completa 500 anos, e que um de seus muitos e maiores contributos, para tal construção, se deu na área da educação. Foram os reformadores que, desejosos de ver a bíblia na mão de cada cidadão, investiram na educação desse mesmo povo e, pela educação, construíram a Europa que conhecemos hoje.

Na Europa, e de uma forma muito distinta, no Reino Unido, temos o testemunho de como a igreja pode influenciar uma nação em todas as áreas de sua existência.

A pergunta a ser feita é: O que aconteceu à igreja da Europa?

Não sei precisar exatamente o que aconteceu mas, me permitam considerar algumas possibilidades.

Primeiro, a ligação da igreja com o poder terreno. Por mais de 1600 anos a Europa foi governada por cristãos e, a despeito da inquestionável influência cristã na construção da rica e admirável Europa, o testemunho da história nos condena. Por quê? Porque igreja não existe para governar, existe para servir. Na igreja de Jesus, o maior é servo de todos. O poder, no evangelho, é poder para servir e não para concentrar ou dominar.

Segundo, a prosperidade da Igreja na Europa. A Europa prospera e a igreja se locupleta dessa prosperidade. Riquezas materiais se tornam o alvo da igreja e seus sacerdotes. O céu não é mais o lugar onde a igreja ajunta tesouros, passa a ajuntar aonde a traça e a ferrugem consomem.(Mt 6:19-20) O dano maior desse adoecimento do senso de valores é a mudança das fontes; pra quem ajunta tesouros no céu, o Deus do céu é a fonte mas, pra quem ajunta na terra, o homem passa a ser a fonte, não uma fonte que jorra mas, tristemente, uma fonte que se explora. O resultado é a inimizade com Deus.(Mt 6:24)

Terceiro, e como consequência da duas primeiras, tem a questão existencial, a razão de ser da igreja na Europa. A igreja na Europa porque deixou de servir para governar, de ajuntar no céu para ajuntar na terra, prosperou e passou a viver pra si mesma. Ela passou a ser a razão da própria existência. Existir pra si é abrir mão do direito de existir, uma vez que evangelho é o “anúncio das Boas Novas”, e, se assim o é, o alvo do evangelho não é o evangelista, é aquele pra quem se anuncia. O evangelista só encontra sentido para a própria existência, na existência daquele para quem anuncia. Se deixa de considerar o valor daquele pra quem anuncia, abriu mão do valor(amor) próprio. Existir pra si é, à luz do evangelho, abrir mão do direito de existir.

A igreja na Europa tornou-se, por essas e outras muitas razões, obsoleta.

Uma preocupação: Vejo, na igreja brasileira, os mesmos estigmas que produziram tal obsolescência: Desejo de poder e ascensão, riqueza e prosperidade como objetivo e razão de ser da igreja e, sobretudo, uma igreja voltada pra si mesma, endo-centralizada e, por isso, invisível aos olhos da sociedade.

Precisamos repensar nosso modo de ser. Precisamos repensar nossos valores. Precisamos repensar nossa missiologia. Disso depende nosso futuro

Pr. Neil Barreto.