Fico realmente impressionado com o fenômeno produzido pelo carnaval na vida de seus foliões. Foram quatro dias intensos de festas e celebrações. Foram quatro dias intensos de aparente alegria manifesta em tantos sorrisos, expressões primais e catarses.

Vendo as imagens dos blocos na televisão, a sensação que tenho é que tudo que vivemos nos outros 361 dias do ano, como, por exemplo, a crise financeira do estado e do país, a falência total da Saúde no estado, a violência extrema que nos vitimiza, a corrupção endêmica, a operação lava jato e todas as instâncias onde a crise se manifesta no país e principalmente no estado do Rio de Janeiro foi, tudo, absolutamente, inverossímil.

Uma questão vem ao meu coração numa época como essa: Como povo, como população brasileira, o que nós somos, afinal?

Somos o povo dos 361 dias, que briga por seus direitos, que reclama, que resmunga, que publica sua insatisfação nas redes sociais, que vai às ruas, que aparentemente se indigna com seus governantes ou, somos o povo dos quatro dias, cheio de alegria, feliz, satisfeito, cheio de recursos, disposto e incansavelmente disponível para celebração?

Não é uma boa questão? Quem somos nós, afinal de contas?
Porquê a máscara, a festa das máscaras faz tanto sucesso entre nós, em nós?
Talvez porque enquanto as usamos, nesses quatro dias, temos a sensação de que não as usamos nos outros 361 dias.

É possível, que o uso das máscaras durante a festa alivie o nosso rosto da máscara que usamos o ano inteiro. A festa, portanto, pode ser apenas uma fuga de nós mesmos, por isso, talvez, o sucesso estrondoso.

É claro que não desmereço o valor cultural e social da festa para o Brasil.

A festa à qual me refiro, não é a cultural e nem muito menos aquela que expressa a belíssima e inquestionável criatividade e competência de seus promotores. Essa, está entre as mais proeminentes expressões culturais da humanidade.

A Festa, à qual me refiro, é a subjetiva, que me faz como sujeito, diluído na massa, um sujeito incapaz de abrir mão da festa para que os investimentos gastos nela, sejam investidos para o bem da própria massa (povo), na qual, como sujeito, me diluo.

Na instância jurídica, o princípio da supremacia do interesse público deve prevalecer sobre o interesse privado, assim, como me refiro à festa subjetiva, se tivéssemos uma consciência social um pouco mais ampla, talvez, individualmente, abriríamos mão da festa das máscaras dos quatro dias, a fim de lutarmos pra que nos outros 361 dias não precisássemos usar máscara alguma.

Citando Alfred de Musset: “O homem é um aprendiz, a dor é a sua mestra, e ninguém se conhece enquanto não sofreu.”

Que as dores dos próximos 361 dias nos ajudem a crescermos em consciência pois, afinal, crescimento somente em meio às dores, em festa, jamais.

Pr. Neil Barreto.